Toda família tem um ritual de aniversário. O da minha chegava pelo telegrama.
Eu e minha irmã somos do Rio de Janeiro. Desde pequenos, no meu aniversário e no dela, chegava um telegrama das nossas tias. Quando a família se mudou para Brasília, ainda na nossa infância, o costume veio junto: a distância aumentou, e o telegrama continuou chegando no dia certo, sem falta.
No começo era em papel, com o texto curto, todo em maiúsculas, do jeito que telegrama era. Depois veio o telegrama fonado. O telefone de casa tocava, uma telefonista avisava que tinha um telegrama para a gente, e aí vinha o recado, com música de fundo. Pela lembrança que tenho, era uma gravação: alguém do outro lado da linha dava o play. A gente parava o que estivesse fazendo para ouvir.
Por que isso ficou
Hoje uma mensagem no celular faria o mesmo trabalho em segundos, e provavelmente sumiria na rolagem antes do almoço. Aquele telegrama não sumiu. Muitos anos depois, eu e minha irmã ainda lembramos dele, e lembramos das tias junto.
Acho que é porque ele interrompia o dia. Alguém do outro lado da linha dizia quem mandava, a música começava, e o recado chegava com voz.
De onde veio o dialeco
O dialeco é a minha tentativa de devolver essa ligação. Você escreve o recado, paga, e o telefone de quem você gosta toca com uma voz que se apresenta, diz quem mandou e entrega o recado. No Clássico é um áudio gravado, do começo ao fim, e dá para pôr uma trilha tocando baixinho por baixo da voz, como naquele telegrama. Na Operadora ao Vivo, ela confirma se atendeu a pessoa certa antes de entregar.
Não é o telegrama dos Correios e não serve como notificação formal. É o mesmo gesto das minhas tias, para um aniversário, uma saudade ou um bom dia de domingo.
Se você tem uma tia assim, ou quer ser a tia de alguém, a linha está aberta.